Por não ter nenhum rigor teórico, conceitual, programático ou metodológico — em suma, por não ter a menor vontade nem capacidade de analisar cada conjuntura específica e dela extrair todas as consequências —, a esquerda reformista e trotskista brasileira se apressou a classificar como ‘tentativa de golpe’ a recente demissão do então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e a troca nos comandos das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica). Com isso, reformistas e trotskistas mais uma vez demonstraram o quanto são superficiais, irrefletidos, oportunistas e precipitados em suas supostas análises. Vejamos.
O que Bolsonaro tentou, com a demissão de Fernando Azevedo e Silva, não foi dar um golpe de estado, pelo menos agora. O que Bolsonaro tentou foi, na verdade, dar um salto qualitativo no processo de acumulação de forças visando à instalação de um futuro governo fascista no Brasil. Ou seja: fazer avançar o processo de transformação da formação política brasileira numa formação política tipicamente fascista. Formação que, em qualquer hipótese, continuará sendo capitalista, como são todos os fascismos.
Mas, ao contrário do que esperava Bolsonaro, o tiro saiu pela culatra. Contrariando suas expectativas, a demissão de Fernando Azevedo e Silva gerou grande insatisfação e mal-estar entre a oficialidade do alto-comando das Forças Armadas, e Bolsonaro teve então que nomear novos comandantes para Exército, Marinha e Aeronáutica. Bolsonaro, portanto, saiu desgastado do episódio e perdeu uma batalha, mas isto não significa que não continuará tentando fortalecer seu projeto de poder junto às Forças Armadas e às polícias brasileiras, onde já possui grande ascendência sobre recrutas e a baixa oficialidade, em sua maioria composta de elementos fascistas e de extrema direita. Bolsonaro continuará com suas investidas junto ao alto-comando porque a adesão das Forças Armadas sempre foi decisiva para a implementação de qualquer projeto fascista, como ilustram os exemplos históricos e clássicos do fascismo na Alemanha, na Itália, na Espanha e em Portugal.
Por enquanto, o alto-comando das Forças Armadas vem resistindo às investidas de Bolsonaro para atrelá-las ao seu governo. Mas que ninguém se iluda: a exemplo da baixa oficialidade, os oficiais dos extratos superiores das Forças Armadas brasileiras também são, majoritariamente, reacionários, conservadores e completamente subservientes à dominação capitalista. São oficiais portadores de um anticomunismo visceral e incapazes de fazer a menor autocrítica sobre os crimes cometidos pela ditadura militar implantada no Brasil pelo golpe de 1964. Tanto é assim que, tão logo foi nomeado como novo ministro da defesa em substituição a Azevedo e Silva, o general Braga Neto deu declarações públicas celebrando o golpe que perseguiu, exilou, prendeu, torturou e matou milhares de militantes de organizações de esquerda, após a derrubada do então presidente João Goulart (1919-1976). Em sua fala, Braga Neto classificou o golpe de “revolução”, ecoando um discurso repetido à exaustão por militares e a direita brasileira.
Mas o que aconteceu em 1º de abril de 1964 não foi uma revolução. O que aconteceu em 1º de abril de 1964 foi, na verdade, um golpe de estado contrarrevolucionário. Um golpe implantado para frear o avanço dos trabalhadores e preservar a dominação capitalista no Brasil.
Ao contrário de golpes de estado, revoluções sempre implicam a participação de grandes segmentos sociais e uma mudança qualitativa nas relações entre as forças que dominam o estado. Em outras palavras, revoluções implicam a derrubada de uma classe social e a substituição de sua dominação pela dominação da classe revolucionária que toma o poder a partir de um ato insurrecional, como ocorrido na Rússia (1917), na China (1949) e em Cuba (1959), entre outros exemplos.
Seja por ignorância ou puro oportunismo, a esquerda reformista e trotskista sempre tratou essa definição conceitual de revolução de forma superficial ou mesmo genérica. E a razão é simples: a esquerda trosko-reformista (no Brasil e no mundo) não quer falar de revolução porque, se fizer isto, terá obrigatoriamente que assumir compromissos com transformações estruturais que não estão em seu horizonte de vida. Afinal, como disseram Marx e Engels na ‘Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas’, texto emblemático de 1850, “o que a pequena-burguesia quer não é transformar qualitativamente a realidade social. O que ela quer é tornar a sua vida melhor no interior da atual formação social, no interior do capitalismo e da dominação burguesa”.
Nesse sentido, ou seja, ao não mencionar ou não se aprofundar na reflexão sobre o significado de uma revolução, a esquerda trosko-reformista faz o mesmo jogo da direita e joga água no moinho ideológico da burguesia.
Reformistas também prestam serviços à dominação burguesa quando, diante de toda e qualquer crise política, invocam o surrado mantra de defesa da democracia como “solução”.
Como comunistas e marxistas leninistas que somos, nos recusamos a convalidar tamanha fraude e continuaremos denunciando o oportunismo da esquerda reformista, em todas as ocasiões, contrapondo a esse oportunismo a nossa estratégia de resistência e luta proletárias, sem conciliação com as instituições do estado burguês.
Venceremos!
